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“Se eu começasse a agradecer a
Deus hoje, até o final da minha vida, eu não iria conseguir agradecer tudo que
Ele fez”, essas são as primeiras palavras emocionadas de Marcelo Carneval um
dos mais novos juízes do estado do Paraná. Ele que estudou direito em Dourados,
contou um pouco de sua história ao Dourados News.
Nascido em uma família humilde,
passou necessidades, estudou, conseguiu vencer e hoje sua superação serve de
inspiração.
Tudo começou em um sítio na
cidade de Irapuru, no interior de São Paulo, seus pais, Maria e Osvaldo
Carneval, tinham o sonho de ter um filho, mas durante anos não conseguiram, até
que um dia Maria descobriu que estava grávida, nascendo o pequeno Marcelo.
A alegria chegou ao humilde lar e
mesmo sem condições financeiras favoráveis o filho único, cresceu e foi
incentivado a estudar. “Meus pais sempre destacaram que o sucesso só viria com
o estudo e seria a única forma de conseguir algo na vida. A minha herança é o
que eles passaram para mim. Eu olho meus pais e vejo exemplo de honestidade e
caráter, isto representa muito para mim!”, conta Marcelo.
O menino ajudava os pais no
pequeno sítio nas produções de café, feijão e maracujá, mas sempre conciliando
com os estudos. Estes, iniciados em uma escolinha de primeira a quarta série,
que tinha apenas uma sala e que cada fileira era a turma de uma série. Já da
quinta a oitava série pegava ônibus todos os dias para ir até a cidade mais
próxima para estudar na escola Professor Edson Moisés, onde ficou até o final
do ensino fundamental.
No final deste período surgiu a
oportunidade de fazer uma prova em colégio particular da cidade vizinha,
Junqueirópolis. Marcelo conta que não queria fazer a prova, pois ia concorrer
com pessoas que já estudavam lá e de outras escolas particulares, mas sua mãe
insistiu e ele a obedeceu. “Acho que foi a única vez que eu contei com a sorte,
porque como eu estudava em escola pública, cheguei lá e muita coisa eu não
sabia, chutei quase tudo, e no meio da semana seguinte fiquei sabendo que eu
tinha sido o primeiro colocado. Mais de 100 pessoas fizeram esta prova e eu fui
o primeiro colocado, não esperava! Eu falei ‘não pode ser, como que eu
passei?’”, recordou.
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| Marcelo com sua avó, mãe e pai na posse de juiz. |
A bolsa de estudos era só para o
primeiro ano do ensino médio, mas a escola viu sua situação e no final do ano o
diretor o chamou e falou que a escola iria assumir seus estudos e ele não iria
pagar nada. “Foi neste período que nasceu a expectativa de fazer um curso
superior, porque até então eu não tinha perspectiva, vários colegas, também de
família pobre, terminavam o ensino médio e ficavam por ali, optavam pela
agricultura ou emprego em supermercado e eu não queria aquilo para mim”, disse
Carneval.
Ele conta que quando foi para a
escola particular sofreu um pouco, pois assim como todos os adolescentes,
também queria participar dos eventos que a escola realizava, mas como não tinha
condições de pagar o convite e ter uma roupa nova, quase nunca participava.
Porém durante os três anos de estudo nasceu o desejo de fazer a faculdade de
direito.
“Recordo que iniciei no ensino
médio no ano de 2000 e logo em fevereiro, no primeiro dia de aula, o professor
passou uma folha para que todos colocassem a pretensão de qual curso superior
tínhamos interesse e a profissão, e nesse dia eu coloquei direito, não sei por
que, e na profissão coloquei juiz. Isso em 2000, há 12 anos atrás, e eu tinha
acabado de fazer 15 anos de idade. Lembro-me como hoje, na hora eu até pensei
direito ou administração? (risos) – aí coloquei direito e juiz, e passei a
folha.”
Mesmo inconscientemente, o
destino do menino pobre já estava traçado, contudo muitas etapas ainda
precisavam ser superadas. No terceiro ano do ensino médio ele fez vários
vestibulares, na Unesp, na USP e no interior do Paraná, mas certo dia um
professor disse que havia feito seu curso numa cidade do Mato Grosso do Sul,
chamada Dourados, na UFMS. “Então o professor Jorge me falou que em Dourados
havia curso de direito na Universidade Federal e na Universidade Estadual, só
que na universidade federal foi no mesmo dia da prova da Unesp e eu não queria
perder, porque a minha intenção era a Unesp, mas não fui classificado, ainda
bem! (risos)”, disse Marcelo.
No final de 2002, Marcelo foi até
Nova Andradina e fez a prova para a Uems (Universidade Estadual de Mato Grosso
do Sul), e dias depois soube que havia passado em 14º, para cursar Direito.
Então veio morar em Dourados, em janeiro de 2003. Foi recebido por um amigo do
professor Jorge, o pastor Elias Aragão que o abrigou por alguns dias em sua
casa, depois passou alguns dias em um quarto na Faculdade Teológica Batista Ana
Wollerman, pois só depois de um mês seus pais se mudaram para Dourados. Lembra
que este intervalo de tempo, que os seus pais não estavam na cidade, foi um
período difícil, “o dinheiro que eu trouxe foi pouco e aí aluguei uma casa,
onde fiquei sozinho, então tinha dia que eu comprava marmitex, mas tinha dia
que não tinha dinheiro, então eu passava com um pão e tomava tubaína, assim
foram os 20 dias até os meus pais conseguirem se mudar para cá”, disse o juiz.
Seus pais venderam a propriedade
que tinham e deixaram uma lavoura inteira para acompanhá-lo, acreditando em seu
sonho e determinação.
No início começou a estudar e não
trabalhava, no final de 2003 conseguiu um estágio voluntário na Justiça
Federal, onde aprendeu muito. No final de 2003 fez um concurso para vigilante
do município e em agosto de 2004 foi chamado para trabalhar, contudo continuou
o estágio. “Eu chegava da faculdade por volta de 12h, almoçava rápido e saia de
bicicleta, andava uns cinco quilômetros até a Justiça Federal, já levava a
marmita para jantar. Terminava o estágio e já ia direto para a vigilância
sanitária, onde trabalhava como vigilante e ficava até meia noite, daí meia
noite eu pega a bicicleta ia para casa, chegava meia noite meia, ia dormir uma
hora e acordava 5h30, tomava o ônibus às 6h para ir para a faculdade”,
lembrou-se de como era sua rotina.
Nos oito meses que trabalhou na
prefeitura, principalmente nos finais de semana, pensava que poderia estar em
outro lugar ou em uma festa, mas tinha que ficar de plantão a noite toda e foi
aí que nasceu a vontade de fazer outro concurso.
Nesta época abriu o concurso do
Instituto Nacional do Seguro Social e do Tribunal de Justiça, Marcelo queria o
do Tribunal de Justiça, pois já conhecia a rotina interna por conta de seu
estágio, mas a prova foi adiada e ele pagou a inscrição para o concurso do INSS
no último dia, faltando poucos minutos para acabar o prazo, “durante um mês,
aproveitei o tempo que ficava na vigilância e estudei de oito a dez horas por
dia”, recorda.
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| Marcelo com sua esposa após a posse. |
A surpresa veio no dia 17 de
fevereiro de 2005, quando Marcelo viu o resultado do concurso e havia passado
em primeiro lugar, “a alegria foi muito grande, porque minha remuneração na
prefeitura era de R$ 340 e o primeiro salário do INSS foi de R$ 1.100, eu tinha
apenas 20 anos na época, então eu fiquei muito feliz!”.
E em seis de abril do mesmo ano
tomou posse e começou a trabalhar na Gerência Executiva do INSS de Dourados,
“no início foi difícil, muito trabalho, mas depois contei com pessoas que me
ajudaram e eu consegui desenvolver o trabalho lá, acho que dentro do esperado”.
No final de 2006 foram chamadas
mais pessoas do mesmo concurso que ele havia feito, entre eles Maria, o romance
estava no ar, porém ela foi trabalhar na agência de Mundo Novo. “Eu liguei para
ela depois do treinamento, chamei para comer uma pizza, mas ela não aceitou.
Depois de alguns dias liguei de novo, aí a gente saiu, começamos a namorar em
dois de novembro de 2006, ficamos noivos no dia 30 de setembro de 2007 e nos
casamos no dia 17 de maio de 2008”.
Um reforço da faculdade foram os
cursinhos preparatórios para concurso que Marcelo iniciou em 2006, se
preparando para o concurso de delegado Paraná. Neste concurso passou em todas
as fases, colou grau na faculdade por meio de uma ação judicial e emagreceu 17
quilos. “Foi uma época bem sofrida e no dia 10 de janeiro de 2008 foi uma
decepção muito grande, porque fui fazer a prova física, senti que estava
preparado, emagreci, fiz de tudo, aí cheguei lá e reprovei, então o abalo foi
muito grande. Reprovei, ai falei ‘Meu Deus e agora eu reprovei, estava tão próximo,
17º para 44 vagas’, depois da reprovação fiquei uns dois meses bem chateado,
nem estudei neste período”, lembrou.
Em seguida fez o concurso em Mato
Grosso do Sul, fez todas as fases “falei: ‘ah aqui vai ser tranquilo eu vou
passar’, treinei, e uma semana antes da prova física foi anulado o concurso
desde a prova discursiva, então o concurso teve que ser refeito. Fiz a prova
discursiva e passei, mas depois desisti porque tinha consciência de que não era
aquilo que eu queria, pois Deus já havia me mostrado por duas vezes isso, o que
aconteceu não foi por acaso, acho que Ele tem algo melhor para minha vida,
então decidi desistir do concurso!”
Marcelo lembra que se arrependeu,
e muitas vezes se pegou em casa, cansado de estudar, e falava “meu Deus, ‘se eu
tivesse continuado naquele concurso de delegado, hoje eu não precisaria estar
estudando tanto, porque que eu desisti?’... Pensei isso várias vezes, mas hoje
eu vejo que isso foi uma decisão correta, porque Deus concedeu algo maior para
minha vida, só tenho que agradecer”.
Após essa fase Marcelo decidiu
estudar para o concurso de juiz e os anos de 2010 e 2011 foram decisivos em sua
trajetória. Fez um cronograma de estudo e uma projeção que até o final de 2014
iria passar num concurso, “era uma coisa à longo prazo, fiz uma distribuição de
matérias, porque tinha que conciliar com o trabalho, também com os meus pais, e
aí meu estudo foi de no mínimo 6 horas por dia”.
Em 2011 fez o concurso para a
magistratura em São Paulo, não passou para segunda fase, mas ficou por apenas
uma questão. Aí viu que estava indo no caminho certo, já que a prova de São
Paulo é uma das mais difíceis do Brasil. Também prestou em Brasília e no
Paraná, passou para a segunda fase nos dois, mas no Paraná foi melhor, “pelo
fato de ter reprovado no Paraná, no concurso para delegado, eu queria muito
passar lá, então foi dando tudo certo, Deus foi abrindo os caminhos e aí nesta
reta final de preparação para a prova oral eu tirei férias e estudei 12 horas
por dia”, contou.
A última fase do concurso de
magistratura era a prova oral, que foi um momento de tensão, expectativa e
nervosismo. Quando chegou a data foi para Curitiba, onde 13 desembargadores o
questionaram, “antes de entrar para fazer a prova pensei “eu já vim aqui em
Curitiba e perdi uma batalha, quando reprovei no concurso de delegado, eu sei
que não era o momento, Deus direcionou a minha vida, mas agora eu vim aqui e
não vim para perder, eu sei que eu tenho a proteção de Deus e vim para ganhar!.
Eu pensei na minha história, na minha vida sofrida, falei ‘ah eu vou e vou
deixar de lado o nervosismo, a timidez, vou entrar e enfrentar a banca’. E foi
isso que fiz, cheguei e acho que fui bem, quando terminou a prova senti um
alívio muito grande!”, lembrou.
De 6.079 candidatos na primeira fase,
restaram 60 na última e Marcelo passou na 38º posição. Contente, ele disse que
os dois dias mais felizes de sua vida foram na mesma data, 17 de maio, “o
primeiro foi meu casamento em 17 de maio de 2008 e a posse 17 de maio de 2012,
então comemoramos o aniversário de casamento com esse evento brilhante!”.
Carneval tem a intenção de ser um
juiz diferente “por ter vindo de uma família humilde, meu desejo é fazer muito
pelas pessoas nesta função, principalmente pelas pessoas carentes. Acho que o
principal do juiz é enxergar o que está por trás do processo, não lidar só com
o papel, mas ver que ali tem uma vida”.
“Não imaginava, que uma pessoa
nascida na pobreza e com apenas 27 anos iria alcançar a posição da
magistratura. Então Deus foi essencial em minha caminhada!”, disse, com grande
sorriso, um dos mais novos magistrados do país. Marcelo se mudou recentemente
para uma cidade do interior do Paraná, onde assumiu o cargo de juiz substituto.
“Já me falaram ‘ah você é muito
inteligente’, mas eu não acredito nisso, Deus deu capacidade para todos. Eu
acho que o que diferencia uma pessoa da outra é o comprometimento, dedicação,
renúncia, esforço e sacrifício se não, não se consegue nada”.
Marcelo fez um cronograma de
estudo e tentou estudar dentro da meta traçada. Ele destacou que o essencial é
a persistência e a dedicação, é não desistir e renunciar. Ressaltou que o
concurso público está cada vez mais difícil, com nível mais elevado, mas não é
impossível, basta ter disciplina e força de vontade, “além de buscar a proteção
de Deus, é preciso ter muita fé em si, porque se o candidato ficar ‘ah eu não
sei se eu passo, eu não sei se eu consigo’, ele não vai conseguir! A primeira
coisa que ele tem que falar é ‘eu sou capaz, eu vou fazer’ e ir em frente, acho
que é a primeira coisa. Então, a receita não é tão fácil de ser seguida, pois o
básico é ter confiança, fé em Deus, renunciar muita coisa, dedicação e não
desanimar!”.
“Sorte? Se existem pessoas que
acham que concurso público é sorte é porque elas não sentem na pele, por que
não tem nada de sorte, é muito esforço! A luta e o sacrifício são grandes... A
sorte... é quase irrelevante!”, ressalta.



Nossa... estou muito emocionada depois de ler este relato maravilhoso e sinto que muito tem haver comigo, pois é preciso muito esforço e tenho consciência que meu "esforço de hoje" não é o suficiente para alcançar algo tão desejado.
ResponderExcluirÉ muito bom ler sobre o que cada pessoa consegue quando realmente merece. E depois disso, tenho a certeza que ainda falta muita, muita determinação pra mim...
Nada vai cair do céu, não adiante esperar um resultado em algo que não está sendo bem construído.
Tenho que me superar ainda mais, muito mais.